O que é um adufe?

Em Portugal, no séc. XXI, a palavra adufe é usada para definir o instrumento de percussão tradicional português, frame drum, bimembranofone, de forma quadrangular (ou triangular, mais raro), ornamentado com fitas coloridas nos cantos, cuja identidade e singularidade emana da Tradição Oral das cantigas, das danças e do toque do adufe da região de Idanha-a-Nova e do Paúl (Covilhã). O mesmo instrumento pode também ser conhecido por pandeiro ou pindeiro em aldeias raianas como Malpica do Tejo ou Monforte da Beira.

O Tiago Pereira e a Música Portuguesa a Gostar Dela Própria têm um papel fundamental na documentação, divulgação e preservação da música portuguesa.

Se por um lado a sua Tradição e contexto o distinguem de todos os outros frame drums, por outro lado, as práticas a ela associadas, das cantigas e do toque do adufe, mostram-nos a ligação evidente a uma família de instrumentos que podemos encontrar amiúde nas diversas culturas e povos – os frame drums – do qual fazem parte, por exemplo: a pandeireta, o pandeiro mirandês, pandero de Peñaparda, tammorra, tamborello, duff, tar, bendir, daff, tof miriam, o tambor xamânico, o riqq, o bodhrán, etc…

A raíz da palavra e a origem do instrumento têm sido confundidas, provavelmente, de forma errada. Não obstante o termo adufe ter origem na assimilação da expressão árabe al-duff (o tambor) na Península Ibérica, não é claro que tenham sido estes a introduzir o instrumento. Sabemos hoje que a dinâmica de circulação de pessoas, bens, cultura, música, etc. no contexto do Mediterrâneo não é tão linear como “Os árabes trouxeram o adufe no séc. VIII!”

As referências e representações de instrumentos quadrados remontam aos túmulos egípcios, estendem-se pelos pórticos de catedrais e igrejas na Península Ibérica, bíblias medievais e haggadah judaicos, azulejos, pinturas, livros e esculturas.

Biblia de Pamplona, 1197.

De salientar, o Vaso de Tavira, uma maravilhosa peça de cerâmica, provavelmente a mais antiga iconografia islâmica do adufe na Península. No bordo do vaso podem observar-se várias figuras: animais, guerreiros e músicos, um dos quais toca um adufe.

Adufeir@ no Vaso de Tavira.

Séc.XXI

Adufes e pandeiros encontram nos centros urbanos do litoral grande receptividade.(sobretudo o adufe). São instrumentos apreciados, valorizados e tocados por inúmeras pessoas e grupos tais como: Adufe em Lisboa, as Adufeiras do Porto, Adufe e Alguidar, Cramol, Segue-me à Capela, NEFUP, GEFAC, etc. de onde se destaca o precioso trabalho  artístico e formação de Sebastião Antunes, Rui Vaz (Gaiteiros de Lisboa) e Rui Silva, que como percussionista/artesão tem introduzido inovações ao nível de construção como objectivo de trazer ao adufe mais qualidade sonora, versatilidade e fiabilidade enquanto instrumento de percussão, de onde se destacam: o sistema de afinação (2013), a estrutura que proporciona a sensação de se estar a tocar em instrumentos diferentes em cada pele do mesmo adufe (2016) e a estrutura assimétrica de espessura variável, isto é, cada canto do adufe tem uma espessura diferente, sendo mais fácil de segurar (2018). O conceito “Adufe Moderno”, criado pelo mesmo percussionista, engloba as exploração de novas técnicas de execução, um inovador método de ensino de adufe e ultimamente trabalho directo com compositores na criação de repertório erudito para adufe.

Prática e repertório

Por todo o mundo, e desde tempos antigos, os frame drums acompanham a voz (e a dança).

Em Portugal, as cantigas de adufe caracterizam-se por uma melodia estrófica cantada em uníssono, ou seja, todo o grupo canta a mesma melodia que se vai repetindo, em todas as estrofes e refrão. Os adufes, também em uníssono, acompanham o canto, sustentando-o através da repetição ad aeternum de um padrão rítmico binário ou ternário, sem variações. A pulsação oscila subtilmente ao longo da música de acordo com o canto, a letra e a respiração dos executantes. Não há referências tonais, nem progressões harmónicas, a cantiga é cantada num tom implícito e confortável para o grupo, que advém da experiência de cantar juntos.

“A força das minhas raízes… Obrigada mãe por me ter transmitido todo o seu saber. ” (Amélia Fonseca, Adufeiras de Monsanto)

A transcrição de melodias utilizando a notação ocidental e o temperamento igual (12 meios tons iguais), pode, na minha opinião, retirar às cantigas a sua essência oral, ou seja, muitas vezes, o transcrito em nada se parece com a origem, uma vez que os intervalos são “corrigidos”, e leva, muitas vezes, à tentação de harmonizar. Acredito que prática das cantigas de adufe está mais próximas das práticas antigas mediterrânicas (melodia e ritmo) do que do sistema harmónico moderno ocidental, pelo que idealmente sejam aprendidas por via oral, directa ou indirectamente (através de registos audio-visuais).


Beira Baixa

Idanha-a-Nova é um dos pilares da Tradição do adufe. Praticamente, todas as freguesias têm um grupo de adufeiras ou um rancho folclórico onde os adufes estão presentes. São dos mais representativos: as Adufeiras de Monsanto, as “Modas e Adufes” de Proença-a-Velha ou Grupo Folclórico de Penha Garcia.

As avós tocam com as filhas e com as netas, o toque do adufe e o seu repertório está vivo. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, o universo das cantigas e o toque do adufe é riquíssimo: uma adufeira de Monsanto sente, toca, move adufe e canta de forma completamente diferente de uma adufeira de Penha Garcia ou do Rosmaninhal. Da mesma forma, as cantigas e as letras das cantigas variam de aldeia para aldeia. É comum a mesma melodia receber quadras diferentes consoante o lugar onde é cantada.

O adufe acompanha o canto. Num grupo de adufeiras todas percutem o mesmo ritmo e cantam a mesma melodia, que se repete em todas as estrofes. Esta prática repetitiva remete para práticas ancestrais, como eram os rituais de fertilidade, cura ou adoração da Antiguidade. É curioso constatar que esta dimensão religiosa/espiritual está tão subtilmente presente nas romarias de adufe e na devoção a nossa Senhora, a São João, a São Pedro ou à Divina Santa Cruz.

Em Idanha, há vários artesãos de adufes activos como José Relvas ou a Fátima Silva (Adufartes). A própria Câmara Municipal criou nos anos 90 a Oficina de Artes Tradicionais, onde são construídos milhares de adufes, que são vendidos e oferecidos como símbolo do Município. Em Salvador, concelho de Penamacor, podemos encontrar Armando Vinagre, provavelmente o mais velho artesão ainda em actividade. Em Castelo Branco, no centro da cidade, podemos comprar adufes a Francisco Camelo.


Paúl, Covilhã

Na aldeia do Paúl, na Covilhã, o adufe tem no Grupo de Adufeiras da Casa do Povo do Paúl um dos mais dinâmicos grupos da actualidade. Dança-se, canta-se e toca-se adufe em simultâneo, num exercício de coordenação impressionante. As adufeiras do grupo, dirigidas pela Leonor Narciso, para além de cantarem o repertório antigo, exploram o adufe performativamente, introduzindo-o em praticamente todos os momentos da vida colectiva: cantares, danças, cantilenas, lengalengas, jogos rítmicos, rimances, rituais quaresmais, encomendação das almas e espectáculos. São frequentemente convidadas para dar workshops de adufe em grandes festivais de Verão, como, por exemplo, o Andanças.

Enquanto instrumento, o adufe do Paúl, é igual ao de Idanha-a-Nova: as samarras (peles de cabra ou ovelha) são cosidas à volta das armas (caixilho de madeira), enfeitam-se os cantos com maravalhas (fitas coloridas) e pode ou não ser colocada uma fita de cetim colorida por cima da costura. No interior do adufe são colocadas soalhas: sementes, pedras, cápsulas de garrafas, bordões e guizos.



Pandeiro Mirandês

A palavra pandeiro, segundo Mauricio Molina, terá a sua origem a partir do árabe bandayr, aparecendo em fontes mais tardias (séc. XV, XVI) na Península Ibérica.

Pandeiro” em Trás os Montes ou “Pandeiro Mirandês” (de Miranda do Douro), é no séc. XXI um instrumento de percussão tradicional portuguesa, frame drum, bimembranofone de formas diversas (o que o distingue claramente do adufe): triangular, hexagonal, pentagonal, losangular e quadrangular. Dentro do instrumento podem ser colocados bordões, guizos ou sementes.

De destacar o extraordinário trabalho do músico e artesão Paulo Meirinhos (Galandum Galundaina), na recuperação e divulgação do instrumento. Neto do artesão Alfredo Ventura e de Maria R. Fidalgo, diz em pandeiromirandes.blogspot.pt: “Ora, l único que fazíe pandeiros an Dues Eigreijas era Tiu Alfredo (miu abó) que se murriu hai binte anhos, i zde anton para acá nunca mais soube de naide que fazissa estes strumentos. Anton, quando nun hai, hai que ambentar algo…” A construção e a utilização dos instrumentos quase desapareceu. Neste sentido, é também fundamental o trabalho de registo, nomeadamente, os mais recentes vídeos do realizador Tiago Pereira, onde se pode ver Maria H. Ventura (MPAGDP, projecto 755) e Fernanda L. Atanásio, (que também constrói) de Freixo de Espada-à-Cinta (MPAGDP, projecto 1617). Nos registos áudio de Veiga de Oliveira, era possível ouvir o pandeiro a acompanhar a gaita de foles, uma instrumentação que, infelizmente, parece ter desaparecido.


Follow me