Adufe & Electrónica: exploração contextual e performativa

Rui Silva, Bruno Gabirro

Este é um primeiro projecto que procura trazer o adufe para uma tradição musical, a da música erudita, da qual tem estado apartado. Apesar de fazer parte do nosso imaginário colectivo como povo, mesmo fora das regiões de onde é autóctone, ficou sempre circunscrito, salvo uma ou outra situação exceptional, à musica de tradição popular de onde é originário. Se essa condição acabou por lhe conferir uma aura mítica, tem-lhe retirado também verdadeiras possibilidades de desenvolvimento e expansão enquanto instrumento em si, ou seja, tanto na técnica instrumental como na construção.

A inclusão de electrónica, em particular de electrónica-em-tempo-real, surge de forma natural na exploração e descoberta das possibilidades do adufe e no seu tratamento, dentro de uma tradição musical onde a electrónica se foi desenvolvendo desde há já um século, tendo tido grande expansão nos últimos 50 anos e sendo hoje parte activa e integrante da prática e pensamento musical erudito. Permite também criar uma ligação com a história e tradição existente do adufe, através de registos fonográficos existentes e como ligação entre dois mundos musicais, que sendo ambos música, são díspares em muitos aspectos.

Propomos assim um projecto que tendo como objectivo final a apresentação em concerto de novas peças para adufe e electrónica, engloba não só a escrita e execução pública dessas mesmas peças, mas também todo um trabalho de experimentação e pesquisa, seja em estúdio, na relação entre compositor e instrumentista, seja no contacto directo com as adufeiras e grupos de adufeiras que têm mantido vivo o adufe e a sua tradição.
Dado o carácter inédito, investigativo e de work-in-progress do projecto, o trabalho será desenvolvido durante 2019/2020, em várias residências artísticas e momentos de estúdio.

Residência 1# – Lajes do Pico, Açores

De 4 a 7 de Abril de 2019, no Auditório do Museu dos Baleeiros, nas Lajes do Pico, Açores.

De 4 a 7 de Abril, Rui Silva (percussionista) e Bruno Gabirro (compositor) estarão em residência/laboratório no Auditório do Museu dos Baleeiros, marcando o início deste  projecto inédito, que incidirá sobre a exploração contextual e performativa do adufe, instrumento de percussão tradicional portuguesa, e da electrónica. 
No dia 7, haverá um concerto de encerramento da residência, precedido de uma breve conversa sobre o trabalho desenvolvido, as ferramentas utilizadas e processos criativo/performativo.A performance em si assentará sobretudo na improvisação e no diálogo entre o adufe, explorado tímbrica e sonoramente de forma tradicional e não-tradicional, e a electrónica-em-tempo-real.  

Geplaatst door Dário Macedo op Zondag 7 april 2019

O adufe moderno

“Adufe moderno” é uma expressão criado por Rui Silva (músico e artesão de adufes), para definir o seu trabalho de investigação performativa do adufe, onde procura compreender e expandir o instrumento tradicional enquanto objecto percussivo, tendo como ponto de partida técnicas, linguagens, contextos e tradições de outros frame drums.
Desde 2010 que se tem dedicado, igualmente, a estudar a Tradição do toque e das cantigas de adufe, a sua linguagem rítmica, práticas performativas, processo construtivo e contexto social actual, baseado na investigação musicológica, etnomusicológica, organológica existente e num intenso trabalho de campo nas regiões onde actualmente se podem observar as práticas acima enunciadas, sobretudo Idanha-a-Nova.

O desenvolvimento do instrumento tem sido alicerçado na investigação e experimentação de novos protótipos e na introdução de novas características, de entre as quais o sistema de afinação, que permite regular a tensão das peles do instrumento, a espessura variável e dois lados sonoros distintos no mesmo instrumento.
Os resultados deste trabalho têm sido acolhidos de forma muito positiva nacional e internacionalmente, nomeadamente no Festival Tamburi Mundi (Alemanha).

Objectivos

Este projecto tem como principal objectivo a divulgação do Adufe como instrumento completo e pleno. Para tal, pensamos que trazer o adufe para a tradição da música erudita, em diálogo com o mundo musical do qual já faz parte, é uma contribuição fundamental. Contribuiremos desta forma para um novo e mais alargado olhar sobre o adufe, promovendo assim a discussão sobre o mesmo, que sem perder de vista as suas origens e tradições, lhe dará novos mundos e novas possibilidades.

Não se trata por isso de uma metamorfose, mas de continuar a caminhar.

Temos também como objectivo que este seja um primeiro projecto de outros que se lhe seguirão. Um primeiro projecto fundamental pois permitirá uma escuta renovada do adufe e das suas possibilidades, promovendo e suscitando assim um novo interesse em que o mundo mitológico sonhado se materializa na realidade dos nossos dias.

Pretendemos abrir o campo da performance erudita e do estudo académico de obras contemporâneas para adufe aos alunos do ensino superior de percussão de Portugal e estrangeiro, contribuindo para o aparecimento de um reportório inédito do instrumento.

Notas biográficas

Bruno Gabirro (compositor)

Estudou na Academia de Amadores de Música de Lisboa, onde terminou o curso de violino com Gareguine Aroutiounian. Na mesma escola estudou viola com Barbara Friedhoff e análise e técnicas de composição com Eurico Carrapatoso. 
Estudou engenharia informática e de computadores no Instituto Superior Técnico de Lisboa. 
Em 2006 concluiu a licenciatura em composição na Escola Superior de Música de Lisboa e em 2008 o mestrado em composição na Royal Academy of Music em Londres. Em Londres trabalhou com Peter Maxwell Davies. 
De 2003 a 2010 trabalhou regularmente com Emmanuel Nunes no âmbito dos ʻSeminários de Composição Gulbenkianʼ. 
O seu trabalho tem sido regularmente apresentado em diversos países e festivais da Europa, América e Ásia, por grupos e orquestras como a Orquestra Gulbenkian, City of Birmingham Symphony Orchestra (CBSO), OrquestrUtópica, SondʼAr-te Electric Ensemble, Royal Academy Soloists e Musica Vitae Kammarorkestern. 
Foi distinguido com diversos prémios e bolsas de estudo por parte da Casa da Música do Porto, Royal Television Society e Royal Academy of Music. Foi em várias ocasiões residente artístico na Miso Music Portugal. Em 2014 foi-lhe atribuída uma residência artística em Madrid pela Casa de Velázquez, Académie de France à Madrid, e Secretaria Geral Ibero-americana. 
Foi aluno bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, onde prepara o doutoramento sobre os quartetos de corda de Luigi Nono e Emmanuel Nunes, sob orientação de Paulo de Assis. 
Estuda Adufe com Rui Silva.

Rui Silva (adufe)

1984, Coimbra. Artesão de adufes, músico e professor de percussão.
Especializou-se em Percussão Histórica, com  Pedro Estevan, no Master en Interpretación de Música Antigua – Percusion Histórica na ESMUC/UAB (Barcelona, 2012). 
Toca com as Sete Lágrimas Consort de Música Antiga e Contemporânea (2009-), com a Capella Sanctae Crucis (2013-), e com o Ensemble Med (2012-). Colabora regularmente com o Ludovice Ensemble, Orquestra Barroca da Casa da Música e L´Effetto Ensemble. 
A sua prática performativa é profundamente marcada pela Tradição Oral do adufe, frame drum tradicional português de formato quadrangular. Nos últimos 9 anos, tem desenvolvido uma intensa investigação junto de adufeiras e artesãos da região da Idanha-a-Nova (e Paúl), aprendendendo, registando, transcrevendo e analisando o processo construtivo, as práticas performativas, a técnica, linguagem e contexto tradicional actual. 
Criou o conceito “Adufe Moderno”, que define a exploração de novas técnicas performativas e de expansão da linguagem do adufe a partir de outros frame drums tradicionais. Abrange ainda a sistematização de um método de ensino de adufe e das cantigas de adufe absolutamente inovador,  partindo da adaptação do sistema rítmico silábico indiano, da desconstrução e compreensão das técnicas e ritmos tradicionais e de exercícios de coordenação psico-motora. Desde 2012, através do seu projecto AL-DUFF (2012-2015) e não só, orientou mais de 60 workshops sobre o toque tradicional para mais de 600 participantes. 
Em 2013 lançou a sua marca de artesão de adufes, que aliam os processos construtivos artesanais à inovação, revolucionando a performance deste peculiar frame drum português, séc. XXI adentro. Participa regularmente no Tamburi Mundi – Festival Internacional de Frame Drums como músico, formador e artesão (2013, 2014, 2015, 2018 e 2019).
Estudou percussão erudita na Escola Profissional de Música de Espinho (2002-2005) e na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo no Porto (2005-2009). É professor de Percussão na Escola Municipal de Música das Lajes do Pico, nos Açores.

Work-in-progress, apoios e contactos

Estamos neste momento na fase de angariação de apoios institucionais e materiais para o projecto. Se pretender apoiar, colaborar, ter mais informações, acolher uma residência artística, pode entrar em contacto através dos emails abaixo.

Bruno Gabirro – brunogabirro@gmail.com Rui Silva – ruisilvaperc@gmail.com