Tradição no séc. XXI

Em Portugal, no séc. XXI, a palavra adufe é usada para definir o instrumento de percussão tradicional português, frame drum, bimembranofone, de forma quadrangular (ou triangular, mais raro), ornamentado com fitas coloridas nos cantos, cuja identidade e singularidade emana da Tradição Oral das cantigas, das danças e do toque do adufe da região de Idanha-a-Nova e do Paúl (Covilhã). O mesmo instrumento pode também ser conhecido por pandeiro ou pindeiro em aldeias raianas como Malpica do Tejo ou Monforte da Beira.

Se por um lado a sua Tradição e contexto o distinguem de todos os outros frame drums, por outro lado, as práticas a ela associadas, das cantigas e do toque do adufe, mostram-nos a ligação evidente a uma família de instrumentos que podemos encontrar em quase todas as culturas e povos – os frame drums – do qual fazem parte, por exemplo: a pandeireta, o pandeiro mirandês, pandero de Peñaparda, tammorra, tamborello, duff, tar, bendir, daff, tof miriam, o tambor xamânico, o riqq, o bodhrán, etc…

A raíz da palavra e a origem do instrumento têm sido confundidas, provavelmente, de forma errada. Não obstante o termo adufe ter origem na assimilação da expressão árabe al-duff (o tambor) na Península Ibérica, não é claro que tenham sido estes a introduzir o instrumento. Sabemos hoje que a dinâmica de circulação de pessoas, bens, cultura, música, etc. no contexto do Mediterrâneo não é tão linear como “Os árabes trouxeram o adufe no séc. VIII!” As referências e representações de instrumentos quadrados remontam aos túmulos egípcios, estendem-se pelos pórticos de catedrais e igrejas na Península Ibérica, bíblias medievais e haggadah judaicos, azulejos, pinturas, livros e esculturas. De salientar, o Vaso de Tavira, uma maravilhosa peça de cerâmica, provavelmente a mais antiga iconografia islâmica do adufe na Península. No bordo do vaso podem observar-se várias figuras: animais, guerreiros e músicos, um dos quais toca um adufe.

Adufe urbano?

Adufes e pandeiros encontram nos centros urbanos do litoral grande receptividade.(sobretudo o adufe). São instrumentos apreciados, valorizados e tocados por inúmeras pessoas e grupos tais como: Adufe em Lisboa, as Adufeiras do Porto, Adufe e Alguidar, Cramol, Segue-me à Capela, NEFUP, GEFAC, etc. de onde se destaca o precioso trabalho  artístico e formação de Sebastião Antunes, Rui Vaz (Gaiteiros de Lisboa) e Rui Silva (adufes.com), que desde 2013, procura igualmente introduzir inovações ao nível de construção, que tragam ao adufe ainda mais qualidade sonora, versatilidade e fiabilidade enquanto instrumento, de onde se destacam: o sistema de afinação (2013), a estrutura que proporciona a sensação de se estar a tocar em instrumentos diferentes em cada pele do mesmo adufe (2016) e a estrutura assimétrica de espessura variável, isto é, cada canto do adufe tem uma espessura diferente, sendo mais fácil de segurar (2018). O conceito “Adufe Moderno” do mesmo músico engloba as exploração de novas técnicas de execução e ultimamente trabalho directo com compositores na criação de repertório erudito para adufe.

Sobre a prática

Por todo o mundo, e desde tempos antigos, os frame drums acompanham a voz (e a dança). Em Portugal, as cantigas de adufe caracterizam-se por uma melodia cantada em uníssono por todo o grupo e que se repete em todas as estrofes e no refrão. Os adufes, também em uníssono, acompanham o canto, sustentando-o através da repetição ad aeternum de um padrão rítmico binário ou ternário, sem variações. A pulsação oscila subtilmente ao longo da música de acordo com o canto, a letra e a respiração dos executantes. Não há referências, nem progressões harmónicas, a cantiga é cantada num tom implícito e confortável para o grupo, que advém da experiência de cantar juntos. A transcrição de melodias utilizando a notação ocidental e o temperamento igual (12 meios tons iguais), retira às cantigas a sua essência oral, ou seja, muitas vezes, o transcrito em nada se parece com a origem, uma vez que os intervalos são “corrigidos”, e leva, muitas vezes, à tentação de harmonizar. Acreditamos que prática das cantigas de adufe está mais próximas das práticas antigas mediterrânicas (melodia e ritmo) do que do sistema harmónico moderno ocidental, pelo que devem ser, idealmente, aprendidas por via oral, directa ou indirectamente através de registos audio-visuais, dos quais sugerimos alguns abaixo. 

 

Idanha-a-Nova

Idanha-a-Nova é um dos pilares da Tradição do adufe. Praticamente, todas as freguesias têm um grupo de adufeiras ou um rancho folclórico onde os adufes estão presentes. São dos mais representativos: as Adufeiras de Monsanto, as “Modas e Adufes” de Proença-a-Velha ou Grupo Folclórico de Penha Garcia.

As avós tocam com as filhas e com as netas, o toque do adufe e o seu repertório está vivo. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, o universo das cantigas e o toque do adufe é riquíssimo: uma adufeira de Monsanto sente, toca, move adufe e canta de forma completamente diferente de uma adufeira de Penha Garcia ou do Rosmaninhal. Da mesma forma, as cantigas e as letras das cantigas variam de aldeia para aldeia. É comum a mesma melodia receber quadras diferentes consoante o lugar onde é cantada.

O adufe acompanha o canto. Num grupo de adufeiras todas percutem o mesmo ritmo e cantam a mesma melodia, que se repete em todas as estrofes. Esta prática repetitiva remete para práticas ancestrais, como eram os rituais de fertilidade, cura ou adoração da Antiguidade. É curioso constatar que esta dimensão religiosa/espiritual está tão subtilmente presente nas romarias de adufe e na devoção a nossa Senhora, a São João, a São Pedro ou à Divina Santa Cruz.

Em Idanha, há vários artesãos de adufes activos como José Relvas ou a Fátima Silva (Adufartes). A própria Câmara Municipal criou nos anos 90 a Oficina de Artes Tradicionais, onde são construídos milhares de adufes, que são vendidos e oferecidos como símbolo do Município.

Adufeiras de Monsanto

Modas e Adufes de Proença-a-Velha

Grupo Folclórico de Penha Garcia

Adufeiras do Rancho Etnográfico de Idanha-a-Nova

Grupo de Cantares de Oledo

Rancho Folclórico de Monsanto

Rancho Folclórico da Soalheira

Tia Benedita

São Miguel-de-Acha

Isabel Milheiro

Idanha-a-Velha

Paúl

Na aldeia do Paúl, na Covilhã, o adufe tem no Grupo de Adufeiras da Casa do Povo do Paúl um dos mais dinâmicos grupos da actualidade. Dança-se, canta-se e toca-se adufe em simultâneo, num exercício de coordenação impressionante. As adufeiras do grupo, dirigidas pela Leonor Narciso, para além de cantarem o repertório antigo, exploram o adufe performativamente, introduzindo-o em praticamente todos os momentos da vida colectiva: cantares, danças, cantilenas, lengalengas, jogos rítmicos, rimances, rituais quaresmais, encomendação das almas e espectáculos. São frequentemente convidadas para dar workshops de adufe em grandes festivais de Verão, como, por exemplo, o Andanças.

Enquanto instrumento, o adufe do Paúl, é igual ao de Idanha-a-Nova: as samarras (peles de cabra ou ovelha) são cosidas à volta das armas (caixilho de madeira), enfeitam-se os cantos com maravalhas (fitas coloridas) e pode ou não ser colocada uma fita de cetim colorida por cima da costura. No interior do adufe são colocadas soalhas: sementes, pedras, cápsulas de garrafas, bordões e guizos. 

Romarias de adufe mais importantes: Senhora das Preces, Santa Luzia, Senhora da Póvoa, Senhora das Dores.

Adufeiras da Casa do Povo do Paúl

Adufeiras da Casa do Povo do Paúl

Adufeiras da Casa do Povo do Paúl

Miranda do Douro

A palavra pandeiro, segundo Mauricio Molina, terá a sua origem a partir do árabe bandayr, aparecendo em fontes mais tardias (séc. XV, XVI) na Península Ibérica.

Pandeiro” em Trás os Montes ou “Pandeiro Mirandês” (de Miranda do Douro), é no séc. XXI um instrumento de percussão tradicional portuguesa, frame drum, bimembranofone de formas diversas (o que o distingue claramente do adufe): triangular, hexagonal, pentagonal, losangular e quadrangular. Dentro do instrumento podem ser colocados bordões, guizos ou sementes. De destacar o extraordinário trabalho do músico e artesão Paulo Meirinhos (Galandum Galundaina), na recuperação e divulgação do instrumento. Neto do artesão Alfredo Ventura e de Maria R. Fidalgo, diz em pandeiromirandes.blogspot.pt: “Ora, l único que fazíe pandeiros an Dues Eigreijas era Tiu Alfredo (miu abó) que se murriu hai binte anhos, i zde anton para acá nunca mais soube de naide que fazissa estes strumentos. Anton, quando nun hai, hai que ambentar algo…” A construção e a utilização dos instrumentos quase desapareceu. Neste sentido, é também fundamental o trabalho de registo, nomeadamente, os mais recentes vídeos do realizador Tiago Pereira, onde se pode ver Maria H. Ventura (MPAGDP, projecto 755) e Fernanda L. Atanásio, (que também constrói) de Freixo de Espada-à-Cinta (MPAGDP, projecto 1617). Nos registos áudio de Veiga de Oliveira, era possível ouvir o pandeiro a acompanhar a gaita de foles, uma instrumentação que, infelizmente, parece ter desaparecido.

 

Maria Helena Ventura

Maria Helena Ventura

Coro Infantil da EB de Miranda